Desmontando o ArMário

A força do humor


(...) Passei então a colecionar frases e figuras engraçadas no meu armário, para poder

vê-las antes de ir para o trabalho. Então, na segunda-feira, na hora em que eu acordei

com aquele mau humor de segunda-feira, olhei para aquelas coisas engraçadas, e não

parava de fazer caretas diante do espelho.

Parecia um bobo diante do espelho, aliás, como é bom ser bobo!...

(...) Basta de mau humor, isso não adianta nada, não leva a vida prá frente!

Homem mal-humorado,

in «Mário, teu Humor está no Armário»



Fui o primeiro homem no mundo a fazer teatro dentro de um avião. Foi um projeto interessante, chamado «Teatro a Bordo», que decorreu em 1994 no Brasil numa ponte aérea entre o Rio de Janeiro e Belo Horizonte. A comédia chamava-se «Um Homem no Ar» e era dirigida pela

atriz Irene Ravache. A repercussão foi fantástica: as pessoas compravam passagens aéreas só para assistirem ao espetáculo dentro do avião, saímos em muitos jornais e revistas e até na revista americana Time.

O mais bonito é que a maioria das pessoas tinha medo de voar, e, ao rirem, esqueciam os seus medos. O voo acabava e elas diziam: «Mas… já? Nem senti o tempo passar!».

Foi aí que percebi pela primeira vez na vida que o riso tem uma ligação direta com o nosso lado emocional, e, no caso, que o riso mata o medo. Se mata o medo, ao termos sempre

bom humor, o nosso medo do desconhecido e do novo desaparecerá.

Assim, quando criei o espetáculo «Mário, teu Humor está no Armário» quis deixar bem claro como o humor é uma das coisas mais sérias que há. Como os médicos dizem que, quando rimos, reforçamos o nosso sistema imunológico e, assim, libertamos um tipo de endorfina que anestesia as

dores, pensei: «Quanto mais rirmos, é claro que funcionaremos melhor. Como conseguir isto?».

Criei, então, um personagem MAL-HUMORADO e STRESSADO que resolve ALIMENTAR-SE DE BOM HUMOR. E a história desenrola-se da seguinte maneira:

Este personagem mal-humorado descobre o poder do bom humor quando o seu filho de 11 anos o convida para ver a série dos anos 60 «Casei com uma feiticeira», a que ele assistia quando era menino e adorava. Ele aceita e depois conclui:

– Vimos quatro episódios juntos e rimos muito. Há quanto tempo eu não ria tanto! Quando acabou, percebi que comecei a pensar melhor nos meus problemas e nos problemas da empresa.

A sua mulher fica contente porque este homem finalmente conseguiu rir ao fim de meses, uma vez que geralmente ele fazia sempre um «drama» face aos problemas. Então, ela mostra-lhe uma reportagem que fala sobre a importância do BOM HUMOR no tratamento de pessoas com cancro e com sida e o facto de as terapias de humor serem realizadas em vários hospitais nos Estados Unidos.

Quando ele descobre que o humor colabora na saúde física e emocional, ele decide alimentar-se de humor, COMER HUMOR, colecionando coisas engraçadas, pesquisando sites humorísticos e vendo, sempre que possível, uma comédia!

E vai ter com a mulher dele para agradecer:

– Nem imaginas o presente que me deste ao mostrar-me aquele recorte de jornal. Lá no trabalho há cada vez mais pressão, mas agora tenho a paciência para escutar as pessoas, já não me irrito facilmente, e acho que até vou gostar de ouvir a tua mãe a reclamar das doenças.

Este homem mudou de atitude diante do seu quotidiano. Se quisermos realizar mudanças, a melhor maneira de o fazermos é estando bem-humorados, ou com «a barriga cheia de humor».

Assim, voltamos ao início e ao meio do livro: o HUMOR é o meio que o fará escutar melhor as pessoas e que matará o medo do desconhecido. Você estará, então, aberto para lidar com as dificuldades, crises e desafios da sua vida pessoal e profissional. E, acima de tudo, o HUMOR irá fazê-

-lo ficar ENCANTADO com a vida, pois dar-lhe-á energia para viver o momento presente percebendo a diferença de cada dia, de cada momento da vida. É através do HUMOR, da sua alegria de viver, que poderá aceitar melhor as diferenças de cada pessoa, ficando encantado com os anões da vida!

As situações complicadas podem acontecer, e, embora elas sejam complicadas, você não precisa de ser complicado.

Quanto mais bem-humorado estiver, melhor lidará com as situações difíceis.

O HUMOR DÁ-LHE O PODER DE PENSAR MELHOR e de se afastar para as situações difíceis e complicadas de fora. Isto porque, ao nos alimentarmos de HUMOR, este traz uma energia

muito potente chamada ENTUSIASMO. De origem grega, a palavra «entusiasmo» significa «deus dentro de si». Os gregos diziam que essas pessoas tinham um Deus dentro delas porque eram capazes de contagiar os outros com a alegria que traziam dentro de si. O cérebro de um homem

entusiasmado funciona melhor. A mente é muito poderosa e, se tivermos as nossas metas bem presentes e com entusiasmo, o hemisfério direito do cérebro ouve e estaremos no caminho de resolver as dificuldades de maneira objetiva sem dramas nem pessimismo.

O humor tem uma ligação direta com o hemisfério direito do cérebro. É como se o fizesse ficar mais sensível e então podemos, com calma, escutar as pessoas e perceber o que a vida está a dizer-nos.

Tal como o meu personagem mal-humorado, temos duas opções: ou continuamos a reclamar da vida, stressados, ou passamos a alimentar-nos de bom humor para vivermos melhor.

Se tivesse de escolher entre conviver com pessoas que reclamam da vida e pessoas que o fazem rir, quem escolheria?

O humor aglutina as pessoas, facilita as relações de afeto. Se escolher conviver com pessoas que tenham bom humor e se escolher alimentar-se de humor, essa alegria de viver levá-lo-á a gostar mais de si mesmo!

Sim, o humor leva ao amor-próprio, reforça a sua autoestima. E se gostar mais de si mesmo, gostará mais das outras pessoas e poderá mudar a sua atitude até diante de uma pessoa que o irritava.

Algumas pessoas perguntam-me:

– Mas como manter o meu bom humor se o meu chefe está sempre de mau humor?

– O mau humor é dele, não é seu. Se o mau humor dele a contagia, é sinal que o seu bom humor não é assim tão forte. Pense na cara de uma pessoa mal-humorada.

Ela começou a rir.

E eu prossegui:

– As pessoas muito mal-humoradas acabam por tornar-se engraçadas. Não precisamos de nos rir da cara delas, mas o mais importante é ter compaixão. Uma pessoa que está mal-humorada está muito mal com a sua vida. Está mesmo doente na sua alma e em breve ficará doente fisicamente.

Lembro-me de uma médica japonesa que conheci num hospital

e que fazia uma pesquisa sobre humor. Ela disse-me:

– Se o bom humor reforça o sistema imunológico, imagine o que o mau humor constante pode fazer? O mau humor aumenta a probabilidade de uma pessoa ter cancro. Isto é inquestionável!

Tinha acabado uma apresentação numa convenção de vendas de um gigante imobiliário em Portugal. Eram 1000 pessoas, todos vendedores. O espetáculo/palestra foi dos melhores que fiz em toda a minha vida. A vibração era contagiante. Chegados ao fim, alguns vieram falar comigo.

Um vendedor disse:

– Agora entendo o que é ter uma alegria sincera. Às vezes, finjo ser uma pessoa que se ri abertamente e falo mais alto para mostrar que tenho energia, mas muitas vezes quando

faço isto fico cansado por dentro, porque não é o que eu sinto. Sou vendedor desde os meus 18 anos, adoro vender, e ensinaram-me que temos de sorrir sempre, mas nunca me ensinaram como isso acontece. Hoje aprendi, por isso, obrigado!

Uma outra vendedora aproximou-se, visivelmente emocionada:

– O meu irmão morreu há um mês. Ele fazia-me rir muito, aliás, adorava fazer-me rir. Claro que estou triste, mas hoje lembrei-me muito dele nesta apresentação e finalmente compreendi que a melhor maneira de eu melhorar é rir-me de novo. Hoje dei gargalhadas aqui e pensei: «O meu irmão

ia adorar ver-me.» A melhor forma de eu ficar perto dele é rindo muito! Afinal, eu estou viva, não é?

– Parece que sim!

– Obrigada.

– Obrigado, eu, por poder ouvir isto!

E abraçámo-nos.

Uma outra mulher aproximou-se e disse:

– Tenho cancro, mas estou aqui, quero viver, estou determinada a viver com alegria. E tudo o que você falou tem tanto a ver com o que eu sinto. Você não sabe a força que me deu.

Muito obrigada!

Obviamente, saber que o meu trabalho atinge as pessoas é algo que me faz bem. Mas as pessoas que me assistem também me transformam profundamente. A vida é uma constante

relação e troca! Ouvir tudo isto e ouvir as pessoas em silêncio em cada espetáculo, faz-me ser um homem melhor.

Este trabalho tem vindo a ensinar-me cada vez mais, e, quanto mais eu o apresento, mais me dou conta de como RIR É ALGO MUITO SÉRIO! Desde há muitos anos que para a cultura ocidental rir não é algo sério e que é «coisa de gente que não é responsável».

Há um ditado no Brasil que eu ouvia quando era criança que diz: «Muito riso, pouco siso!». Voltei a ouvi-lo quando comecei a trabalhar em Portugal.

Mas em Espanha, Itália, Inglaterra e em muitos países o humor no mundo profissional não foi levado a sério durante anos. E, na realidade, é precisamente o contrário:

quando nos rimos reforçamos o nosso sistema imunológico, por isso poderemos funcionar, pensar e produzir melhor. Por isso digo que Humor é Dinheiro. E está mesmo ligado à produtividade.

Um ambiente bem-humorado dentro de uma empresa levará ao aumento da produtividade. O bom humor facilita a criatividade e a versatilidade, que são essenciais para o mundo de hoje e para a competitividade. Em algumas empresas dos Estados Unidos, da Europa e do Brasil, um dos

requisitos para se contratar um líder é que ele tenha BOM HUMOR. Um chefe mal-humorado desestabiliza uma equipa, e isso é um prejuízo medonho. O tempo dos chefes que gritam

está realmente a chegar ao fim, pois o mercado não quer comportar um líder assim. Se a empresa tiver de escolher entre dois candidatos de grande competência técnica, e um tem bom humor e o outro não, você já sabe quem a empresa escolherá!

Claro que as empresas também vão querer empregar colaboradores que sejam competentes e que reforcem uma equipa, e para isso ter humor é fundamental.

O cuidado que devemos ter é que algumas pessoas pensam que, ao alimentarem-se de humor, poderão rir da outra pessoa. Se rirmos do cabelo do nosso colega ou do nariz da nossa vizinha, certamente eles não quererão ter proximidade connosco. Isto não é humor; é agressão, é sarcasmo, e afasta as pessoas. O humor que vive pelo prazer da brincadeira aglutina as pessoas.

Em Portugal, logo no meu primeiro ano de trabalho, fui contratado por uma das maiores seguradoras do mundo presente no país. Eram 10 espetáculos, 5 para o sector de Recursos Humanos e 5 para o sector de Marketing. Os espetáculos para os Recursos Humanos eram direcionados para as chefias e dividiram-se em 5 sessões, com 40 pessoas em cada uma.

No primeiro dia, ao acabar o espetáculo, estava a dar a palestra mostrando como o humor era algo sério e como nos fazia romper paradigmas mais facilmente, uma senhora com cera de 50 anos interrompeu-me de repente:

– Tudo isto é muito curioso! Entrei nesta companhia há quase 30 anos. Era uma pessoa alegre e responsável, mas gostava de rir, e o meu chefe naquela altura disse-me que eu não deveria rir com o meu colega ali no escritório, porque não era de bom tom e porque as pessoas sérias e profissionais

não se riem. Eu deixei de rir e fui-me tornando amarga ao longo dos anos. E, agora, quase 30 anos depois, trazem do outro lado do oceano alguém para nos dizer que rir é algo sério e que contribui para a produtividade. Então, eu estava certa. As lágrimas dela desciam, ela então olhou para o diretor e disse:

– Eu posso mandar um e-mail para si com uma figura do Rato Mickey ao lado?

O diretor concordou, dizendo que mandaria para ela também um e-mail com uma figura do Pato Donald. E sorriram juntos. Disse que é importante colecionarmos humor de acordo com a nossa maneira de ser. Há pessoas que colocam figuras engraçadas no ecrã do computador, outros colocam na porta do frigorífico, outros colocam uma foto do filho ou da filha sorrindo. Claro que haverá momentos difíceis e complicados, e, nestes momentos, poderá irritar-se e ficar com mau humor. Mas, quando se irritar, pensará: porque me irrito se valorizo o bom humor? Então o seu cérebro relaxará e conseguirá ouvir a outra pessoa e perceber melhor as situações. Assim, é a sua consciência que possibilita uma mudança de atitude.

O humor é uma ginástica; quanto mais nos alimentamos dele, mais teremos posturas e comportamentos positivos nas nossas vidas.

Perguntam-me sempre qual a diferença entre o humor no Brasil, em Portugal, em Espanha e na Itália. Em todos estespaíses também tive o praze r de apresentar os meus espetáculos ao domicílio. Em casa você está rodeado pelos seus familiares, amigos e amigos dos amigos. Nas empresas está

rodeado de pessoas que passam 70% do tempo da vida delas consigo. Nas empresas, dou a palestra, trabalhada de acordo com o briefing que a empresa me dá; nas casas, é um divertimento, mas também converso um bocado com as pessoas no final de espetáculo. Tudo isto para dizer que

confirmei o que pensava: o humor dos meus espetáculos não é um tipo de humor próprio de um lugar. Não é o humor carioca nem o humor nordestino, é um tipo de humor universal que trabalha sobre questões humanas que faz as pessoas rirem e refletirem seja em que país for. Em qualquer

um desses países as pessoas riem-se em momentos muito parecidos, por exemplo, na história da mulher que se apaixona por um anão. Riem sempre na mesma piada, mesmo que seja em inglês.

Esse foi um dos presentes que Portugal me deu. A minha primeira apresentação feita em inglês foi em 2008 e para isso tive uma preparação feita pela minha professora, que é inglesa e também diretora de teatro, Melinda Ethelton. Foi um grande encontro. Ela é uma mulher sábia e foi um dos

meus maiores desafios, pois não era a língua que eu mais dominava. Melinda mostrou-me como o cérebro realmente colabora para uma aprendizagem. Fora contratado por uma empresa que constrói e administra centros comerciais e a apresentação foi em Milão, na Itália, no âmbito de uma

convenção internacional onde estavam presentes gregos, franceses, alemães, italianos, espanhóis, portugueses e brasileiros.

E todos se riam nos momentos que nos outros países também se riem.

A minha primeira experiência com um público com nacionalidades diferentes foi em Barcelona, em 2002. Quando comecei a apresentar o espetáculo em espanhol, quis fazê-lo em apresentações ao domicílio, para poder praticar a língua.

E alguém de uma casa levava-me sempre a outra. Barcelona é uma cidade realmente muito internacional, pois em várias casas eu tinha espetadores de muitas nacionalidades diferentes. Uma vez cheguei a ter numa plateia de 35 pessoas australianos, venezuelanos, italianos, alemães, búlgaros, mexicanos, ingleses, todos unidos pela língua espanhola.

Barcelona foi onde realmente percebi que, mesmo que sejamos estrangeiros, todos temos traços comuns: a consciência de que podemos desenvolver o nosso humor que vem pelo prazer de rir, a possibilidade de aprendermos a conviver de forma saudável com as diferenças e de aprendermos

a reforçar a nossa autoestima, a noção de que estamos aqui para aprendermos a amar com mais alegria, a nós mesmos e à vida. É a nossa estrada.

Em qualquer lugar, o ser humano vai sempre estranhar uma mulher estar apaixonada por um anão, vai sempre emocionar-se quando um homem assumir que tem medo do desconhecido, vai sempre entender claramente o que é um homem mal-humorado que descobre o poder do riso. Na

hora de rir, é tudo muito parecido: é o «bicho homem» rindo.

Como lidar com isto, socialmente, no antes e no depois, é que poderá ser um pouco diferente consoante cada país.

Os estereótipos de cada país são curiosos, e têm um fundamento, embora não totalmente. Comecei este trabalho no Brasil, e o meu país é muito conhecido por ser alegre e por o seu povo gostar muito de rir. Posso dizer que apresentei este trabalho praticamente em todo o Brasil, de norte a sul,

onde os diretores queriam implementar a cultura do bom humor para motivar os vendedores, os líderes e as equipas.

Pois em muitas empresas existem tensões, mau humor e invejas. Claro que há diferenças nas regiões, mas em todas era importante levar a «cultura do humor ligada à produtividade ». E, na maioria das vezes, as pessoas ficavam aliviadas ao descobrir que podem ter muito humor e serem responsáveis.

Lembro-me de que quando dei uma entrevista para um canal de televisão no Rio de Janeiro, conversei com o jornalista durante um intervalo da gravação e contei-lhe que os europeus acham que os brasileiros são alegres, que estamos sempre bem-dispostos no trabalho. O jornalista retrucou:

– Ah, manda alguns lá para a empresa para eles verem o que é tensão, lutas de poder e mau humor. Eles vão adorar!

E rimos.

Em São Luís, no estado do Maranhão, apresentei vários espetáculos para as instituições públicas. Recordo que, numa certa instituição, apresentei dois espetáculos/palestras em dias seguidos. No meu segundo dia, quando tudo terminou, uma secretária de um dos diretores abordou-me:

– Eu achei que tinha de falar consigo antes de se ir embora.

Ontem vi o seu espetáculo e o meu chefe também estava presente. O meu pai está no hospital e tenho ido lá vê-lo sempre depois do trabalho. Isto já dura há três semanas, e todos os dias lá vou eu. O meu chefe está a par da situação, mas nunca me perguntou nada. É um homem fechado, é

difícil lidar com ele e muitas pessoas aqui têm medo dele.

Todos os dias a caminho do trabalho quando estou na paragem do autocarro vejo o meu chefe a passar de carro. Pois hoje de manhã ele viu-me na paragem, parou o carro, convidou-me a entrar e a primeira coisa que me perguntou foi:

«Como está o seu pai? Está melhorzinho?». E começou a perguntar-me pormenores sobre o tratamento, quis saber se precisávamos de alguma coisa e até me disse que se eu algum

dia precisasse de sair mais cedo para ir ao hospital não haveria problema. E eu sabia que isto tinha a ver com o que ele ouviu ontem aqui sobre ser generoso e ter mais humildade.

Obrigada!

Ela abraçou-me e as lágrimas corriam pelo seu rosto!

Na estreia do meu espetáculo «Mário, teu Humor está no Armário» numa companhia petrolífera no estado do Rio de Janeiro, um operário disse durante a palestra:

– Mas eu não tenho o dom do humor. Não sei rir!

– A única coisa que posso dizer-lhe é que rir é um dom humano. O homem é o único animal que ri! Não vejo uma vaca ou uma galinha rindo para mim!

Ele começou a rir e então eu disse:

– Mas você está rindo!!?

– Estou...!

Disse-lhe que o humor é uma inteligência que podemos desenvolver sempre e contei que tinha lido que as crianças riem entre 300 e 450 vezes por dia, mas os adultos apenas de 15 a 30 vezes.

Alguma coisa aconteceu.

Não estou a dizer que devemos ter atitudes infantis, mas o facto de a cultura ocidental ter difundido por muitos anos que rir não é sério inibiu um dom fantástico dos seres humanos que nos dá a possibilidade de aprimorar a nossa inteligência. Quando fui contratado em Portugal por um dos maiores bancos, o diretor disse-me:

– Já li sobre o seu trabalho e acho muito importante que transmita as suas mensagens. Mas vou desde já pedir-lhe desculpas, pois eles não se vão rir muito. Sabe, somos conhecidos por sermos uma das empresas mais «cinzentas» e somos portugueses, enfim, o fado...

Entendi o que ele me estava a querer dizer, e talvez ele ti-vesse razão, mas pensei: «Trabalham num banco, mas são seres humanos!».

E, na hora do espetáculo, as pessoas choravam a rir, literalmente. Após o trabalho, entrei no local onde todos comiam e aplaudiram-me. Foi muito bonito. Eram pessoas muito entusiasmadas. Comentei com o diretor:

– Disse que eles quase não se iriam rir.

– Pois, as pessoas surpreendem-nos sempre.

Dois meses depois, fui contratado por uma grande empresa de laticínios para apresentar dois trabalhos: um para o sector de vendas e o outro para os operários da fábrica.

Comecei pelos operários e o diretor de Recursos Humanos veio falar comigo:

– Estão todos tristes com as mudanças, por isso, não se preocupe se eles se rirem pouco!

– Claro, sei bem o que é isso!

E riram desbragadamente. Isto aconteceu muitas e muitas vezes ao longo destes meus 11 anos de trabalho neste país, o que me leva a pensar que as próprias pessoas têm preconceitos

sobre quem realmente são as pessoas que ali trabalham. O povo português tem a tradição do fado, mas também tem a tradição do teatro de revista e fazem qualquer piada diante de um acontecimento ou de uma tragédia.

Então, claro que as pessoas têm sentido de humor, está dentro delas.

É interessante saber que pode rir, mas o que fará com isso depois? É importante que as pessoas ao tomarem consciência de que rir é muito sério levem a mensagem para as suas vidas por meio de atitudes construtivas. E que não voltem para os medos. Também conheço pessoas que riem durante o espetáculo, mas depois continuam a reclamar da vida o tempo todo. Por mais que eu dê elementos, as pessoas decidirão se querem «comer humor» ou não, se querem realmente olhar

para o colega do lado e parar de o julgar, se querem estar entusiasmados diante dos desafios e crises.

Recentemente, em março de 2010, fui convidado por uma empresa de telecomunicações móveis para apresentar cinco espetáculos/palestras em Angola, mais concretamente na cidade de Luanda. Era a primeira vez que viajava para África, e intuía que poderia aprender muito, mas nunca pensei que esta experiência mexesse comigo de uma forma tão profunda.

Os espetáculos eram apresentados todos os dias, de segunda a sexta-feira, para os funcionários das lojas, para as pessoas que trabalham no sector financeiro, no call center, no sector administrativo, para os diretores, etc.

Logo após o primeiro espetáculo, ouvi observações sobre o trabalho de forma muito aberta. Percebia que as pessoas tinham realmente vontade de aprender e de crescer.

Na cidade de Luanda o trânsito é um caos. Tanto vemos pessoas muito pobres como automóveis muito caros, para além de haver pessoas de classe média que também trabalham e estudam. O país saiu de uma guerra há poucos anos e percebe-se que ali a vida do dia-a-dia não é fácil. O mais bonito

é perceber a força de vida que os angolanos possuem mesmo apesar de tudo isto. Sou brasileiro e já vi isto no Brasil, mas penso que em Angola é mais forte ainda. Há uma doçura e uma profunda pureza quando os angolanos se riem. A boca abre-se mesmo e é um riso sincero. É contagiante! Não há

como não observar e sentir isto. E é algo que nos leva a refletir sobre até que ponto as pessoas das outras cidades gostam mesmo de viver as suas vidas, de ter prazer e de sorrir. Muitas delas gostam, mas também há muitas que se distanciaram da alegria genuína pelo simples facto de estarmos vivos.

Após o segundo espetáculo, a direção da empresa apercebeu-se de como o trabalho entrava dentro dos funcionários e de que eles poderiam dirigir esta força de viver para o trabalho, de modo a terem mais entusiasmo, aprenderem a ter mais responsabilidades nas suas tarefas e a trabalhar melhor

em equipa, o que, obviamente, afetaria a produtividade de forma positiva. Assim, a empresa convidou-me para apresentar mais quatro espetáculos/palestras, sendo que estes seriam nas províncias (estados) de Angola. Foram, então, nove espetáculos, o que me deu a oportunidade de

ter uma ideia do funcionamento dos angolanos em várias cidades. Encontrava a mesma generosidade, a mesma vontade de aprender e a mesma força de querer estar vivo.

O diretor comercial da empresa conta-me que recebe vários e-mails dos funcionários pedindo formação nas mais variadas áreas.

Apresentei-lhes todo o meu material e a resposta foi surpreendente.

Ouvi perguntas e observações de vários sectores daquela empresa que nunca ouvi durante os 11 anos em que tenho feito o espetáculo «Mário, teu Humor está no Armário» em vários países.

Uma funcionária contou que o chefe dela dizia a cada cinco minutos: «Eu sou chefe». Ela percebia a insegurança dele e perguntava-me como poderia lidar com esse problema.

Falámos sobre a importância da compaixão, e os outros colegas e os outros chefes ouviram também. Pediram-me que aquilo que tínhamos falado fosse retransmitido nas outras sessões para os seus outros colegas, pois eles tinham de aprender a trabalhar mais em equipa. Em Cabinda, um funcionário fez uma comparação clara entre o que significa a história do anão e a rejeição por

parte de muitos colegas quando entra na loja de telemóveis uma pessoa esfarrapada – muitos achavam que a «pessoa esfarrapada» não vai comprar nada, e às vezes é ela quem compra –, e ele defendia a importância de deixarmos de ter preconceitos. Uma funcionária do call center queria perceber como a voz dela e as suas atitudes poderiam acalmar um cliente nervoso. Um funcionário da loja de Lubango percebeu o que significa uma «escuta ativa» e qual a sua relação com o momento presente para encantar o cliente e efetuar a venda.

Eles não tinham pudor em falar, em perguntar, e eram absolutamente frontais. Compreenderam que a força deles trabalhando em equipa faria com que a empresa realmente crescesse, e que todos poderiam lucrar com isso.

O curioso é que na cidade de Benguela, quando eu estava a almoçar com os funcionários, entre gargalhadas, o gerente do restaurante veio pedir-nos que nos ríssemos mais baixo pois estava prestes a chegar ao restaurante uma «autoridade » e aquela risada pegada não era de bom tom. Um dos

funcionários disse-me:

– Talvez a tal autoridade até gostasse de ouvir as gargalhadas, mas quem a rodeia é que acha que a alegria é de mau tom!

Então até em Angola existem preconceitos sobre rir alto, ou rir muito! É um dos problemas do mundo ocidental.

Com o passar dos dias, revi algumas pessoas que relataram alterações de comportamento nas suas casas e no trabalho. Um homem que trabalhava no sector de recursos humanos contou-me que conseguira acalmar a sua tia, que era muito nervosa e não escuta ninguém, que ele tinha tido paciência em demonstrar, com afeto, como as pessoas podem conviver juntas se aprenderem a escutar-se. E a tia havia pedido desculpas por ser tão nervosa. Percebi como aquela alegria de viver daquele país me contagiou e regressei mais forte, acreditando cada vez mais que estamos aqui para aprender a dirigir a nossa alegria para comportamentos e atitudes saudáveis.

Como tenho vindo a relatar, ao longo destes anos muitas pessoas mudaram de atitude, mas porque elas quiseram. Em qualquer formação ou treino é importante darmos uma semente boa, fértil, mas a DECISÃO é do indivíduo.

E isto tem a ver com uma palavra de que gosto muito:

RESPONSABILIDADE. É libertadora e dá-nos a noção clara de que se mudarmos as atitudes a realidade mudará. Realmente transformei as minhas atitudes e comportamentos diante das dificuldades, crises e desafios. Ter tanto humor diante de uma dificuldade como diante do prazer é

essencial. Conheço muitas pessoas que também não sabem aproveitar com prazer o que a vida lhes dá e continuam a reclamar. De seguida, relato um encontro que foi decisivo

para a relação Saúde/Humor/Amor.

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