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O
negócio do riso
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Por Elisabete Vilar Há dez anos começou a fazer teatro para grupos particulares por falta de trabalho. Hoje já saltou as fronteiras do Brasil a actuar em empresas, festas e até num avião. Eis raul de Orofino, um missionário do bom humor. Raul de Orofino é a prova de que um dos melhores estímulos para a invenção é a necessidade. Raul de Orofino é a prova de que um dos melhores estímulos para a invenção é a necessidade. Sem trabalho, o actor e autor brasileiro "inventou", já lá vão dez anos, um mercado próprio: o teatro "ao domicílio". Tudo devido ao seu confessado "síndroma de Scarlett 0'Hara", ao seu instinto de sobrevivência. "Sou de uma geração que não reclama da vida: a gente arregaça as mangas e faz", explica. Começou por fazer algumas representações em casas de amigos, daí saltou para festas de aniversário e outras, aperfeiçoou a mensagem dos seus espectáculos começando a representar em empresas e foi mesmo o primeiro actor a actuar abordo de um avião. "Mário, Teu Humor Tá no Armário" é o nome do espectáculo que o trouxe até ao nosso país - tendo sido apresentado em encontros de empresas e em casas particulares de nomes sonantes do "jetset'' como Lili Caneças - e baseia-se num conceito fundamental para o artista de 38 anos: o riso e a ideia de que este é terapêutico. A convicção, muito ocidental, de que "muito riso equivale a pouco siso" e o preconceito que leva a sociedade a considerar pouco sérias as pessoas que muito riern é o vírus que Raul de Orofino de propõe a erradicar. O actor, que transpira boa disposição, enuncia as vantagens de umas boas gargalhadas: "Rir faz perder o medo, derruba as barreiras hierárquicas e aglutina as equipas". Por isso, também, são numerosas e variadas as empresas que já incluíram peças de Raul nos seus encontros, convenções, feiras e acções de formação. A princípio, conta o actor, as pessoas parecem algo deconfiadas quando, em vez de uma palestra sobre técnicas de vendas ou de um orador apontando para gráficos, lhes surge um homem acompanhado de uma cadeira, uns cabides e duas mesinhas. Quando, porém, esse homem, Raul de Orofino, lhes mostra que "rir ajuda todo o mundo a viver melhor", "as pessoas sentem um alivio enorme". Espectáculo em quatro quadros "Mário, Teu Humor Tá no Armário" mostra uma sucessão de quatro quadros que põe a nu o preconceito, o medo da mudança, do diferente e da morte. São quatro personagens "numa consulta do analista", todas interpretadas por Raul de Orofino que começa por despir-se, revelando uma combinação de mulher e é como Ana Lúcia, uma rapariga apaixonada por um anão, que Raul inicia o espectáculo-num quadro que "leva as pessoas a darem-se conta do preconceito e a aceitarem melhor o novo e encantar-se com isso". As situações são simples - segue-se a consulta de Carlos Alberto, um dono de casa assutado com novos desafios, de Clayton, um homossexual que precisa absolutamente de dominar tudo e Mário, um homem mal humorado que descobre a maravilha "de ser bobo" através do filho adolescente. A linguagem é comum e como sublinha Raul de Orofino, não se fala de desgraça, não se associa directamente as situações aos defeitos "profissionais" ou a questões sociais demasiado específicas. "Uso uma limguagem muito afectiva, que quebra as barreiras. Porque as pessoas devem conseguir amar-se malhor a si mesmas e aos outros". E a verdade é que a peça "leva à reflexão, ao humor e à emoção". Após cada espectáculo, segue-se o debate, com cerca de 50 minutos. E é pelo que é dito então que Raul percebe até que ponto a mensagem chegou aos seus destinatários. Para o actor é importante que o público compreenda que rir não só não faz perder responsabilidade ou seriedade como "passou a ser dinheiro"; "a globalização exige cada vez mais o trabalho em equipa e o bom humor é um dos maiores factores de aglutinação", explica. Mais: "Rir liberta endorfmas que reforçam nosso sistema imunológico e faz-nos pensar, criar e produzir melhor". A peça estimula ainda pequenas mudanças de hábitos, a aceitarem a vida com mais leveza e a enfrentarem o dia-a-dia com boa disposição - daí serem essencialmente os departamentos de recursos humanos a servirem-se dos seus préstimos. E, normalmente, Raul de Orofino ouve comentários que reforçam a sua convicção de que "rir é coisa séria": as empresas pedem-lhe que repita a peça noutras ocasiões, as pessoas querem saber como contratá-lo para espectáculos em casa e até é frequente dizerem-lhe: "Fiquei com vontade de voltar ao teatro". "Tem gente que me vê representando em convenções e pergunta onde é que está passando para levar a família e os amigos". Por ora, Raul está de regresso ao Brasil, mas planeja voltar em breve a Portugal. Quando souberam que viria, alguns conhecidos desaconselharam, sustentando que o público luso seria "muito cinzento". Mas o actor não se arrependeu e até elogia o modo como foi recebido por cá - tanto que até já sonha com projetos mais europeus, mas sem revelar ainda detalhes. De qualquer modo, Raul não teria sido homem para ter cruzado os braços, ainda que o sucesso das suas "performances" não o tivesse deixado satisfeito. "Mantenho a mesma paixão que tinha quando comecei", o mesmo entusiasmo que o levou a lutar quando todos diziam que não ia dar "certo", garante. |