<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="65001"%> Raul de Orofino - Teatro empresa

 

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Mário, Teu Humor Tá no Armário
Mesmo que o seu nome não seja Mário, o importante é tirar o humor do armário. Sabe o que é o teatro-empresa?

Revista EXAME - Portugal - março de 2000

VOLTA

 

 

por Ana Rita Ramos

Oitenta pares de olhos fitavam-no. O actor brasileiro Raul de Orofino estava parado no meio de um palco improvisado no Hotel Sofitel, em Lisboa. Ao som de música de fundo, virou-se de costas e, com gestos lentos, desabotoou a camisa, afrouxou o cinto, desceu o fecho das calças. Por baixo da roupa exibiu uma combinação branca, sedutora. Raul transformou-se em Ana Lúcia, uma mulher que se apaixona por um anão, enquanto a audiência em peso sustinha a respiração. Os funcionários do Sofitel nem queriam acreditar no que viam.

Por esta altura o leitor deve estar baralhado. Um peça de teatro num hotel? E, ainda por cima, apresentada para os seus colaboradores? Se você é daqueles que nunca esboçam um sorriso, vire a página. Este artigo não é para si. Caso contrário, conheça, nas próximas 142 linhas o projecto teatro-empresa que o actor ("actor formador", como se autodenomina) Raul de Orofino está a introduzir em Portugal. Objectivo? Levar o humor para o trabalho. Pensa que estamos a brincar? Não, isto é coisa séria. "Profissionais bem-humorados não melhoram só o ambiente de trabalho. São mais motivados, criativos e rápidos a encontrar soluções para os problemas do mundo empresarial", afirma Raul de Orofino, com olhar impertubável e fixo. Enfrentar, dia-a-dia, rabugentos contumazes dificulta a tarefa da inovação. A saída? Rir. "Quando rimos libertamos endorfinas que anestesiam dores físicas e emocionais, além de reforçamos o sistema imunológico. Podemos pensar, criar e produzir melhor", diz Orofino. Rir é o melhor remédio. Eis a convicção com que Orofino arrancou dos colaboradores do Sofitel os primeiros sorrisos. Cedo perceberam que a peça envolvia formação e entretenimento. Introduz conceitos de qualidade total, mas passados a brincar. Mário, Teu Humor Tá no Armário, como se chama a comédia, é uma solução para as empresas que querem acabar com as apresentações bolorentas e o blábláblá entediante de alguns formadores. A peça mostra sketches da vida privada de quatro personagens que desenrolam a sua lista de preocupações. Metáforas perfeitas das relações de trabalho.

Imagine tudo isto - tudo - embrulhado em sonoras gargalhadas. "Quebrámos a rotina e, com humor, alertámos as pessoas para problemas da vida profissional", diz Marina Santos, responsável pelos recursos humanos do Sofitel, que contratou Raul de Orofino para apimentar a festa de Natal.

Deliciados, os funcionários reviravam-se nos preconceitos dos personagens. Ana Lúcia é uma mulher que se apaixona por um anão; Clayton, um homossexual com problemas com Dudu, o namorado prepotente; Carlos Alberto, desempregado, trata das lides domésticas, enquanto a mulher trabalha fora de casa; e ainda um homem vulgar que enfrenta o peso da rotina.

No fim do show, Orofino estabelece um dedate que ajuda a fixar os conceitos da peça. Leva a platéia a interpretar as histórias e adapta a sua intervenção à realidade de cada empresa: faz perguntas aos espectadores e ajuda-os a resgatar o sentido de humor. Todas as histórias focam problemas da vida das organizações: relacionamento entre equipas, necessidade de agilizar a mudança, abolição de preconceitos.

Para Raul de Orofino, é bom levar o humor mais a sério - ele é um activo cada vez mais valorizado pelas empresas, indispensável a quem se quer dar bem na carreira. Uma boa gargalhada atravessa fronteiras hierárquicas e estimula a criatividade. Foi esta certeza que levou Marina Santos a exibir a peça no Sofitel.

Objectivo? Ajudar a que o humor fizesse parte do ecossistema da empresa. "Humor, não algazarra ou paródia. É uma arma de produtividade." Além de permitir encarar com um sorriso, as rugas do mundo, ajuda-nos a assimilar novos conceitos. "Com esta peça não só distraímos a plateia, mas também passámos uma mensagem."

Momento aglutinador: As gargalhadas deslizavam pela sala. Criou-se, no Sofitel, uma estranha intimidade: directores rindo com empregadas domésticas. "O facto de rirmos juntos fez mais pelo espírito de equipa do que dezenas de horas de formação tradicional", garante Marina Santos.

Pergunta essencial: o que melhora nas organizações com a palestra de Raul de Orofino? "As relações entre as pessoas e a cultura da empresa", disse à EXAME Mónica Vieira, directora de serviços de saúde da Coca-Cola, no Brasil, que o contratou para a semana de prevenção de acidentes de trabalho.

Segundo ela, a formação de Orofino é uma aragem subtil. Alerta os colaboradores para várias questões. Mas não faz milagres. Se pensa que após o espectáculo se acabam os problemas, é capaz de se desiludir. Para que esta comédia não seja apenas uma erupção episódica de bom humor, há que investir num programa de longo prazo. Como acontece, aliás, em qualquer tipo de formação.

Qual o motivo por que Orofino actuou para os 300 colaboradores da Coca-Cola, no Brasil? "Mudança de hábitos e vontade de reaprender a rir", responde Mónica Vieira. Para esta responsável a peça ficou esculpida na memória dos funcionários.

No Brasil, empresas como a Volkswagen, Avon, Hewlett-Packard, Petrobrás e vários hospitais experimentaram já o teatro-empresa. Deram-se conta de que ajuda a aliviar tensões, melhora o relacionamento interno e incentiva a criatividade. Afinal, não é disso que as empresas precisam?

Raul de Orofino apercebeu-se disso há anos, quando iniciou um projecto de teatro ao domicílio, durante a crise cultural do Brasil, na época de Collor de Melo. "Como as pessoas não vão ao teatro, o teatro vai às pessoas", pensou. Melhor o fez. Depois de um instante calado, Raul abriu um sorriso e relevou o seu lema: "Teatro é como pizza. Você pede pelo telefone e eu entrego em sua casa ou empresa."

Além de uma oportunidade de negócio, Raul crê que o humor é um escudo contra as misérias do mundo.

Esta comédia pode ser uma arma de diferenciação para a sua empresa. Mesmo que você não se chame Mário, o importante é tirar o humor do armário. E atenção: isto não é piada.